
/Karam Valdo
Desisti de lutar contra a insônia. Meu sono já tinha se esgotado antes mesmo que o relógio batesse às três da manhã. Bem, não consigo ler quando isso acontece (o mundo caí num silêncio apavorante), se eu ver televisão varo a noite e ganho um par de olhos imprestáveis afundados em uma olheira fria no dia seguinte. Foi então que decidi fazer uma viagem no tempo, profunda. Decidiu que iria encontrar minha primeira memória, a lembrança mais velha que minha cabeça de 27 anos conseguiu guardar. E decidi ampliá-la, relembrar situações, cheiros, sons. Reconstruir esse mundo invisível e eterno nos limites da minha existência desde que aconteceram, nos mínimos detalhes.
me vi sentado em minha escolinha mesas amarelas quadradas amigos de hoje com o rosto redondo de criança folhas para colorir em frente formávamos uma fila e a professora sem rosto me colocava na fila indiana ordem de tamanho pelos corredores do casarão pelo salão de festa enorme a fila se diluiu no parquinho as crianças se misturam com o pátio de areia balanços rangendo em agudos dissonantes tanques para lavar a bagunça a jaboticabeira.
No fundo, antes da cerca de tela verde do Sr. Hugo, uma jaboticabeira imponente. Um dia desceram dela grandes bacias de plástico colorido cheias de das bolinhas pretas de vários tamanhos (as grandes e aguadas, as pequenas e ardidas, as vermelhas amargas). “Não engulam as sementes se não fica difícil de fazer cocô”.O doce escorregava na garganta e se transformava num deleite viciante quando a vontade de parar sempre vinha acompanhada do desejo de que a ultima jaboticaba fosse a mais gostosa.
Segui meu exercício de insônia lembrando me dos ciclos que a vida oferece e da mesma maneira desfaz devagar, colocando outros no lugar. Tempos perdidos retomaram o brilho em minha viagem. Percebi que os mais brilhantes foram aqueles que saltaram da rotina. Algo que não deveria acontecer nos planos e aconteceu. Percebi que não tinha lembranças detalhadas dos dias normais, esquecidos em horas que se desbotaram.
Nesta manhã, ao acordar com um domingo lindo, sustentado por um sol matutino e um céu de amplo azul que fui à padaria tomar café, a pé. Andando devagar fiz um caminho diferente, me assustei com os cachorros presos nas casas de quem ainda não mora em apartamento. Depois do café voltei na mesma sintonia. E descobri uma interessante exposição de pinturas a poucos metros da minha casa. Depois, segui o meu dia na pauta de um efêmero domingo.
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Colocou rss? E deu uma vontade de chupar jaboticaba!
Acho que consegui colocar. mas tá escondido ali embaixo. hehehe
. tem jaboticaba em itamogi?
Vc me remeteu a um presente magnífico, estava um pouco dividido entre o passado e o futuro, pisei no chão no momento que terminei de ler o texto.
Parabéns!
Continue.
pai, nosso chão existe porque ele se sustenta entre duas sarjetas. Uma chamada passado e outra chamada futuro. Obrigado pela visita, é sempre muito importante!
Me lembrei da escola Trenzinho lendo o texto… bons tempos!
vc lembra que tinha mini-sapos quando chovia?
Claro que lembro!! Alí perto daquelas trepadeias perto do muro!!
Tanto é que lembro que depois de um dia de chuva, enchemos um baldinho de mini-sapos e colocamos todos na bolsa da professora!