
Não teremos um fim. Quem dirá um final feliz. Duas frases curtas que qualquer leitor como você poderia achar extremista e pessimista. Poderia ser se eu parasse por aqui, e não explicasse. Poderia dizer que elas são sim realistas, mas não vou dizer isso.
Digo, “não teremos fim. Quem dirá um final feliz”. Nossa vida não é um romance ou qualquer enredo de novela ou qualquer outra história. É mais rica que qualquer outra história, é um grande ciclo emaranhado de outros pequenos ciclos, iniciados e finalizados pelo poder das vontades e decisões, ditas (questionavelmente) certas ou erradas.
Não teremos fim, assim como não temos um começo. Devo contar meu começo de onde? Na manhã do dia 30 de julho de 1981 da Era Cristã? Ou não existi como feto, embrião, óvulo e espermatozóide, átomo, elétron, onda, energia…? Talvez meu começo seja meu pai e minha mãe – duas outras histórias sem começo.
Minha vida não terá um último capítulo. Onde tudo se encaminhará para a realização plena. Vou morrer sem realizar alguns sonhos, sem pagar algumas contas, velho ou novo. Em alguma hora tudo isso vai ser interrompido. Sem um final.
Posso receber essa compreensão por duas vias. Pensar que a vida é mesmo imbecil e vegetativa. Cumprir meus papéis automáticamente, buscando a felicidade ou a tristeza que me satisfará naquele instante até o que final chegue. E ponto.
Mas prefiro crer que as imperfeições dos momentos não os desvalorizam. Sendo a vida sem fim, cada momento deve ser vivido e sentido com a devida importância, seja a festa de formatura ou lavar das orelhas. Quem sabe vivê-los como se fossem os últimos. Prefiro pensar em vivê-los como se fossem únicos. Como se cada segundo fosse uma foto que não se repete, que se desfaz no presente no mesmo instante em que se cria. E eu as guardo no meu passado para que sejam a matéria-prima de meu futuro.
Ouvi num filme nesse final de semana uma obviedade que me fez um certo sentido. É preciso estar 100% presente em cada momento. Imaginei-me no meio de um cabo-de-guerra (lembra?). Eu segurando as pontas de duas cordas, uma atada em cada braço. O passado puxa com força uma ponta, o futuro tem seus sobressaltos de impetuosidade e quase arranca-me do centro. E eu, firme, controlando as duas pontas para me manter no presente. Até que meu ciclo se transforme.