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Karam Valdo

/Karam Valdo

Desisti de lutar contra a insônia. Meu sono já tinha se esgotado antes mesmo que o relógio batesse às três da manhã. Bem, não consigo ler quando isso acontece (o mundo caí num silêncio apavorante), se eu ver televisão varo a noite e ganho um par de olhos imprestáveis afundados em uma olheira fria no dia seguinte. Foi então que decidi fazer uma viagem no tempo, profunda. Decidiu que iria encontrar minha primeira memória, a lembrança mais velha que minha cabeça de 27 anos conseguiu guardar. E decidi ampliá-la, relembrar situações, cheiros, sons. Reconstruir esse mundo invisível e eterno nos limites da minha existência desde que aconteceram, nos mínimos detalhes.

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sobre fé e milagres

A ROSA DE PARACELSO

Em seu laboratório, que ocupava os dois cômodos do porão, Paracelso pediu a seu Deus, seu indeterminado Deus, qualquer Deus, que lhe enviasse um discípulo. Caía a tarde. O escasso fogo da lareira projetava sombras irregulares. Levantar-se para acender a lâmpada de ferro era muito trabalho. Distraído pelo cansaço, Paracelso esqueceu da sua súplica. A noite já desfizera a imagem dos poeirentos destiladores e da tubulação quando bateram à porta. Sonolento, o homem levantou-se, subiu a curta escada em caracol e abriu uma das folhas da porta.  Entrou um desconhecido. Também estava muito cansado. Paracelso lhe indicou um banco. O outro sentou-se e esperou. Por um tempo, não trocaram uma só palavra.
O mestre foi o primeiro a falar.
– Lembro de rostos do Ocidente e do Oriente – disse ele, não sem certa pompa. – Mas não me lembro do seu. Quem é você e o que deseja de mim?
– Meu nome não importa – replicou o outro. – Caminhei três dias e três noites para entrar em sua casa. Quero ser seu discípulo. Entrego-lhe todos os meus pertences.
Ele apalpou sua bolsa e virou-a sobre a mesa. As moedas eram muitas e de ouro. O homem fez isso com a mão direita. Paracelso lhe havia dado as costas para acender a lâmpada. Quando se virou de volta, verificou que na mão esquerda o jovem empunhava uma rosa. A rosa o inquietou. Recostou-se, juntou a ponta dos dedos e disse:
– Você pensa que sou capaz de elaborar a pedra que transforma todos os elementos em ouro e então me oferece ouro. Não é o ouro que busco, e se o ouro lhe importa tanto, você nunca será meu discípulo.
– Não me importa o ouro – respondeu o outro. – Estas moedas não são senão uma prova da minha vontade de trabalhar. Quero que você me ensine a Arte. Quero percorrer ao seu lado o caminho que conduz à Pedra.
Paracelso falou devagar:
– O caminho é a Pedra. O ponto de partida é a Pedra. Se você não entende estas palavras, então ainda não começou a compreender. Cada passo que der é a meta.
O outro olhou-o, temeroso. Com voz clara, disse:
– Então existe uma meta?
Paracelso riu.
– Meus detratores, que não são menos numerosos do que estúpidos, dizem que não. E me chamam de impostor. Não lhes dou razão, mas não é impossível que eu seja um sonhador. Sei que “existe” um Caminho.
Houve um silêncio. Até que o outro disse:
– Estou pronto para percorrê-lo ao seu lado, ainda que seja preciso caminhar muitos anos. Deixe que eu atravesse o deserto. Deixe que eu vislumbre, de longe que seja, a terra prometida, mesmo que os astros não me permitam pisá-la. Quero uma prova antes de iniciar o caminho.
– Quando? – perguntou Paracelso, inquieto.
– Agora mesmo – respondeu o discípulo, com brusca decisão.
Tinham começado falando em latim. Agora falavam em alemão. O rapaz levantou a rosa no ar.
– Corre a fama – disse ele – que você pode queimar uma rosa e fazê-la ressurgir da cinza, por obra de sua arte. Permita que eu seja testemunho desse prodígio. Peço-lhe só isso, e em seguida lhe darei toda a minha vida.
– Você é muito crédulo – disse o mestre. – Não preciso da sua credulidade. Exijo a fé.
O outro insistiu:
– Exatamente porque não sou crédulo é que quero ver com meus olhos a aniquilação e ressurreição da rosa.
Paracelso apanhara a flor a brincava com ela, durante a conversa.
– Você e crédulo – comentou. – Está dizendo que sou capaz de destruí-la?
– Ninguém é incapaz de destruir uma flor – disse o discípulo.
– Pois está equivocado. Acredita, por acaso, que algo pode ser devolvido ao nada? Acredita que o primeiro Adão no Paraíso era capaz de destruir uma única flor ou uma folha?
– Não estamos no Paraíso – disse teimosamente o rapaz. – Aqui, debaixo da lua, tudo é mortal.
Paracelso estava agora de pé.
– Em que outro lugar estamos? Você acha que a divindade pode criar um lugar que não seja o Paraíso? Acha que a Queda é outra coisa além de ignorar que estamos no Paraíso?
– Uma rosa pode ser queimada -  disse o discípulo, desafiadoramente.
– Ainda tem fogo na lareira – disse Paracelso. – Depois de atirar esta rosa às brasas, você acreditaria que ela foi consumida e que sua cinza é verdadeira. Pois eu lhe digo que a rosa é eterna e que só sua a aparência muda. Bastaria que eu dissesse uma palavra para que você a visse de novo.
– Uma palavra? – perguntou o discípulo, com estranheza. – A tubulação não está funcionando e os destiladores estão cheios de poeira. O que você faria para que ela ressurgisse?
Paracelso olhou-o tristemente.
– A tubulação não está funcionando – repetiu – e estão cheios de poeira os destiladores. Neste trecho da minha longa jornada uso de outros instrumentos.
– Não me atrevo a perguntar quais são – disse o outro, com astúcia, ou humildade.
– Estou falando daquilo que a divindade usou para criar os céus e a terra e o invisível Paraíso onde estamos mas que o pecado original oculta de nós. Estou falando da Palavra que nos ensina a ciência da Cabala.
O discípulo disse com frieza:
– Peço-lhe a mercê de me mostrar o desaparecimento e aparição da rosa. Não me importa se você trabalha com destiladores ou com o Verbo.
Por um momento, Paracelso refletiu. Depois disse:
– Se eu fizesse isso, você diria que se trata de uma aparência imposta pela magia dos seus olhos. O prodígio não lhe traria a fé que busca. Esquece, portanto, a rosa.
O jovem olhou-o, sempre temeroso. O mestre levantou a voz e disse:
– Além do mais, quem é você para entrar na casa de um mestre e exigir um prodígio? O que fez para merecer tal dom?
Trêmulo, o outro replicou:
– Sim, sei que não fiz nada. Mas, em nome dos muitos anos que vou estudar à sua sombra, peço-lhe que me deixe ver a cinza e depois a rosa. Nada mais lhe pedirei. Acreditarei no testemunho dos meus olhos.
E, tomando bruscamente a rosa encarnada que Paracelso deixara sobre a estante, atirou-a às chamas. Sua cor se perdeu. E dela só restou um pouco de cinza. Durante um instante infinito, o discípulo esperou as palavras e o milagre.
Paracelso não se alterou. Com uma curiosa franqueza, disse apenas:
– Todos os médicos e boticários de Basiléia afirmam que sou um embusteiro. Talvez estejam certos. Veja aí a cinza que foi rosa e que não será de novo.
O rapaz sentiu vergonha. Paracelso não passava de um charlatão ou de um mero visionário e ele, um intruso, havia entrado por sua porta e o obrigava agora a confessar que suas famosas artes magicas eram inúteis.
Ajoelhou-se e lhe disse:
– Agi de modo imperdoável. Faltou-me a fé que o Senhor exige dos crentes. Deixe que eu continue vendo a cinza. Voltarei quando seja mais forte e serei seu discípulo. No final do Caminho, verei a rosa.
Ele falava com genuína paixão, mas essa paixão era a piedade que lhe inspirava o velho mestre, tão venerado, tão agredido, tão insigne e, no entanto, tão vazio. Quem era ele, Johannes Grisebach, para descobrir com mão sacrílega que por trás da máscara não existia ninguém?
Pareceria esmola deixar ali as moedas de ouro. O rapaz tomou-as de volta, ao sair. Paracelso acompanhou-o até o pé da escada e lhe disse que eria sempre bem-vindo em sua casa. Ambos sabiam que nunca mais se veriam de novo.
Paracelso ficou sozinho. Antes de apagar a lâmpada e sentar-se na fatigada poltrona, encheu a mão côncava com o tênue punhado de cinza e disse uma palavra em voz baixa. A rosa ressurgiu.

(Jorge Luís Borges/tradução de João Silvério Trevisan)

Emily Dickinson

Soft as the massacre of Suns

By Evening’s Sabres slain

Ying Yang Jung

A sombra veio ter com a luz a fim de saber o motivo de não lembrar-se da escuridão.

-Minha cara sombra, a escuridão se torna parte de mim quando apareço. Eu eu posso moldá-la no formato de qualquer matéria, apenas com a direção de meu olhar. Sob meu controle, a escuridão imita a realidade.

Trêmula, a sombra conclui.

-A escuridão sou eu. Sou eu sob teu controle. Mas, ainda resta uma dúvida. Tu me moldas ou sou eu que me adapto sob o teu olhar?

Cala-se a luz.

um

A escolha precede a vida. Por algum motivo, respiramos esse mesmo ar, comemos dos mesmos frutos, pisamos na mesma terra, não temos a mesma crença.

O dilema da semente

Por vezes tenho síndrome de raíz. Tento nas profundezas de meus domínios nutrir-me nas águas turvas de meus lençois, freáticos.  Me escondo. Me fixo mais em mim.

Por outras vezes tenho síndrome de folha. Tento desenhar meus limites buscando a luz no verde, vivo. Respiro para transformar a essência da vida.

Por não ter um só caminho. Me faltam os frutos.

teus

No princípio era o
verbo
E o verbo era
eus

fogo-brando

 

um pensamento…………outro…….retorna a insônia

uma preocupação………outra culpa………entorna o caldo da noite
………………………………………………………a dentro.

templo

Salisbury Cathedral

tudo descansa
no amplo silêncio
Tao

o cerne vazio acalenta o corpo
o que há de tão carinhoso
no vazio?

corpo, meu templo

alto e oco,
estica-se em vitrais azulados,
conta histórias para ninguém

corpos selados,
sepulta memórias
imersas no limite do mármore

manto imaculado,
sustenta a chama da vela
que ninguém viu ser acesa

tudo descansa
no Tao
amplo silêncio
de uma catedral

Na casa de minha Vó

Meninas em Notre_DameSoa o velho toque eterno

Releva o tempo que se vai

No ar, partículas

suspensas, monótonas

mostram-se nas frestas,

feixes do dia insistem em entrar

 

É quente o cheiro que contorna a sala

Denso, sabor de incenso

Doce que se espalha e some

Emana da pele, célula velha,

de feridas que não saram mais

 

No corredor, pó inspirado

Nos pulmões, histórias

abrem-se em alvéolos 

Sentir e lembrar

 

A medalha de meu avô soldado,

alma que o tempo me privou

A caixa de costura na cômoda

e na parede escorre

o grande rosário

 

Lá fora, o quintal

Diluída na luz,

a cadeira vermelha e vazia

Sol que derrete o doce 

Cheiro, denso incenso,

queima, se espalha e some

 

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