Quando eu cheguei à revista Realidade, o Zé era o que eu queria ser quando virasse jornalista.”
Paulo Henrique Amorim
Zé Hamilton repousa eternamente em suas reportagens da finada revista Realidade. Enquanto pessoa, é vivo e trabalha em projetos para a Rede Globo. Enquanto meu mito, ele pode ser encontrado no santuário está encadernado em couraças parecidas com as de tese de mestrado, na Biblioteca Central da Puc-Campinas, nos poucos volumes da revista Realidade que ali restaram e que pouca gente consulta. Ali mesmo, minha jornada começou para mim há oito anos.
Depois de todo esse tempo, o espírito do lugar ainda era o mesmo. Talvez mais oco para mim. Nos meus passos vazios no pátio cheio de rostos desconhecidos com a mesma cara de antes, deixei-me levar pelos corredores da universidade.
Muito do cheiro do início ainda estava lá. O cheiro da sala onde, pela primeira vez, ouvi falar em Jornalismo Literário era exatamente o mesmo, me assisti sentado ali ouvindo o professor propor fazer uma reportagem narrativa. Meus sonhos reverberaram novamente nos limites daquelas paredes.
Numa xícara de café espresso, no que não é mais a cantina, mas uma praça-de-alimentação cada vez mais parecida com um shopping center, flutuei pelos olhares das pessoas. No primeiro gole amargo; um gordinho ouvia algo e tomava coca-light. No segundo gole; a loira da mesa ao lado solta um palavrão antes de liberar a fumaça presa no pulmão. Virei o café; uma repórter de alguma matéria experimental de TV implorava uma sonora aos que comiam nas mesas do fundo. Resolvi ir à biblioteca.
Na barriga da baleia
- Você tem certeza de que este é o nome da revista? - respondeu-me com uma pergunta a atendente da biblioteca. Sem tirar os olhos do computador, onde consultava “o sistema” perguntou outra vez: - Mas é Revista Realidade ou só Realidade? Faz muita diferença! O senhor já viu isso aqui?
Depois de uma ajuda da bibliotecária, a atendente me mostrou um corredor. No meio dele algo em torno de vinte volumes encadernados, capa dura e vermelho vinho. Ali, alguns exemplares da revista em que eu queria ter trabalhado. Infelizmente, não foi minha época.
Procurei, por curiosidade, matérias de meu ex-chefe. Achei algumas. Mas, o que me segurou na cadeira por mais de três horas foram as matérias do José Hamilton Ribeiro.
Uma pauta mais deliciosa que a outra. A melhor delas, naquelas horas: Zé Hamilton passou uma semana trabalhando como operário, numa fábrica, escondido da tarefa de repórter, alojado com aqueles operários na pensão, viveu e sentiu o gosto do chão-de-fábrica. O objetivo era saber como o jovem brasileiro sem escolaridade conseguia trabalho.
Aqueles personagens viveram novamente ali, de 1970 e poucos direto para 2008, numa narrativa simples, de gênio.
…
Zé Hamilton é o repórter que carrega, para mim, uma emoção particular. Não o considero o melhor, nem o mais ousado, nem o mais genial dos jornalistas-escritores. Talvez o que consegue ser mais simples (tarefa difícil). Mas foi com um texto de Zé Hamilton que eu chorei pela primeira vez ao ler um livro. Foi na reportagem que ele escreveu quando foi à guerra do Vietinã, “Eu estive na guerra”, que virou um livro-reportagem, “O Gosto da Guerra”:
- Dois feridos. Um deles está morrendo.
Henry e eu permanecemos parados, enquanto todo o pessoal do nosso grupo já caminhava, junto com os enfermeiros, para perto de onde estourou a bomba. Henry propõe:
- Vamos lá? Você talvez consiga ótimas fotos.
Eu não acho que um soldado morrendo seja uma boa foto, hesito, mas Henry insiste:
- Vamos?
- Ok, vamos!
Ele foi na frente, seguindo o mesmo caminho usado pelos enfermeiros. E eu fui atrás dele. Nem bem dei cinco passos quando o estrondo de uma explosão povoou inteiramente meus ouvidos. Um zumbido agudo e interminável brotava na minha cabeça. Uma nuvem negra de fumaça fez desaparecer tudo à roda e eu tive a impressão, nítida, de que a bomba explodira exatamente em cima do soldado Henry. Quando a fumaça se dissipou um pouco e eu não via o Henry, imaginei que ele tivesse sido projetado para longe e a essa hora já devia até estar morto. Ele apareceu na minha frente de repente, com o rosto transformado numa máscara de horror.
- Henry você está bem?
Ele não respondeu e continuou caminhando em minha direção. Senti-me sentado e não descobri por quê. Entrevi Shimamoto, saindo da fumaça, e ainda lhe pergunte: - Shima, você está ok?
Ele trazia um cigarro aceso e tentou colocá-lo na minha boca. Não aceitei. Sentia na boca um gosto ruim, como se tivesse engolido um punhado de terra, pólvora e sangue – hoje eu sei, era o gosto da guerra. Cuspia, cuspia, mas aquela gosma amarga permanecia na minha boca. Então, senti um puxão violento na perna esquerda e só então tive a consciência de que a coisa era comigo”.
…
Foi em lágrimas, dentro de um ônibus, em maio de 2002, que eu me dei conta de que o jornalista poderia se misturar com o escritor que eu queria ser. Me dei conta de que é possível chegar até a emoção pela narração. Transformar por palavras e não só ser o repetidor de fatos enfeitados pela linha editorial vindo da cabeça de alguém, em nome do lucro de alguém.
Meu segundo encontro espiritual com Zé Hamilton foi surpreendente, mas não revelador. Trouxe mais dúvidas do que certezas desta vez.