toda árvore guarda um paradoxo
somente se antes
se aprofundarem
se antes
se lançarem na origem de sua semente
toda árvore guarda um paradoxo
se antes
se lançarem na origem de sua semente
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Li este artigo três ou quatro vezes na minha vida. Em momentos diferentes, da primeira vez, em 2005, até a última, antes de ontem, ele me deu impluso para movimentar meu cotidiano e encarar as frustrações da minha sombra escondidas nos cantinhos do dia a dia. Recomendo a leitura numa hora tranquila.
A papelada fatal
Meu finado tio Aurélio cultivava uma obsessão curiosa: “A papelada!”. Não adiantava convidá-lo para viajar, passear no fim de semana ou chorar em algum velório, pois ele não arredava o pé de casa. O motivo da ausência era sempre o mesmo: arrumar infinitos documentos, zelar por negócios pessoais ou dar conta das solicitações cotidianas. Para encurtar as desculpas, ele levantava as mãos para os céus e, como se cumprisse os desígnos do Criador, justificava: “A papelada!”.
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/Karam Valdo
Desisti de lutar contra a insônia. Meu sono já tinha se esgotado antes mesmo que o relógio batesse às três da manhã. Bem, não consigo ler quando isso acontece (o mundo caí num silêncio apavorante), se eu ver televisão varo a noite e ganho um par de olhos imprestáveis afundados em uma olheira fria no dia seguinte. Foi então que decidi fazer uma viagem no tempo, profunda. Decidiu que iria encontrar minha primeira memória, a lembrança mais velha que minha cabeça de 27 anos conseguiu guardar. E decidi ampliá-la, relembrar situações, cheiros, sons. Reconstruir esse mundo invisível e eterno nos limites da minha existência desde que aconteceram, nos mínimos detalhes.
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A ROSA DE PARACELSO
Em seu laboratório, que ocupava os dois cômodos do porão, Paracelso pediu a seu Deus, seu indeterminado Deus, qualquer Deus, que lhe enviasse um discípulo. Caía a tarde. O escasso fogo da lareira projetava sombras irregulares. Levantar-se para acender a lâmpada de ferro era muito trabalho. Distraído pelo cansaço, Paracelso esqueceu da sua súplica. A noite já desfizera a imagem dos poeirentos destiladores e da tubulação quando bateram à porta. Sonolento, o homem levantou-se, subiu a curta escada em caracol e abriu uma das folhas da porta. Entrou um desconhecido. Também estava muito cansado. Paracelso lhe indicou um banco. O outro sentou-se e esperou. Por um tempo, não trocaram uma só palavra.
O mestre foi o primeiro a falar.
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Soft as the massacre of Suns
By Evening’s Sabres slain
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A sombra veio ter com a luz a fim de saber o motivo de não lembrar-se da escuridão.
-Minha cara sombra, a escuridão se torna parte de mim quando apareço. Eu eu posso moldá-la no formato de qualquer matéria, apenas com a direção de meu olhar. Sob meu controle, a escuridão imita a realidade.
Trêmula, a sombra conclui.
-A escuridão sou eu. Sou eu sob teu controle. Mas, ainda resta uma dúvida. Tu me moldas ou sou eu que me adapto sob o teu olhar?
Cala-se a luz.
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A escolha precede a vida. Por algum motivo, respiramos esse mesmo ar, comemos dos mesmos frutos, pisamos na mesma terra, não temos a mesma crença.
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Por vezes tenho síndrome de raíz. Tento nas profundezas de meus domínios nutrir-me nas águas turvas de meus lençois, freáticos. Me escondo. Me fixo mais em mim.
Por outras vezes tenho síndrome de folha. Tento desenhar meus limites buscando a luz no verde, vivo. Respiro para transformar a essência da vida.
Por não ter um só caminho. Me faltam os frutos.
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